Para entender
Mesmo número, pé diferente: o tênis casual da medida à garantia
O número 39 parece uma informação fechada. Você calça 39, pede 39, recebe 39. Só que dois tênis casuais com o mesmo 39 na caixa podem ter sido pensados para pés de tamanhos diferentes. E a diferença não é de milímetro.
Na tabela masculina e unissex da ASICS, o 39 do Japan S corresponde a um pé de 26 cm. Na tabela da New Balance para o 574v2 Unissex, o 39 corresponde a um pé de 25 cm. Um centímetro de distância, com o mesmo número estampado. Sobre 25 cm, isso dá 4%. Parece pouco no papel, mas é um centímetro inteiro de pé.
Este texto não vai dizer qual dos dois comprar. Ele usa os dois como exemplo pra explicar o que muda num tênis casual em cada momento: antes da compra, na chegada, nos primeiros dias, quando suja, quando molha, na hora de guardar e quando aparece um defeito. Os exemplos são versões específicas: o ASICS Japan S masculino Branco/Preto, código 1201A555-105, e o New Balance 574v2 Unissex Preto/Natural, referência U574HB2, os dois no 39. Outras cores e outros materiais podem ter outra composição e, por isso, outro cuidado.
Antes de comprar: o pé no papel
O primeiro erro é escolher o número pela memória. "Eu calço 39" é uma informação sobre um tênis antigo, de uma marca, numa época. O que vale para a compra nova é a medida do seu pé hoje, comparada com a tabela daquela marca.
A ASICS ensina um jeito simples de medir, que serve pra qualquer tabela:
- Coloque uma folha de papel no chão, encostada na parede.
- Pise na folha com o calcanhar encostado na parede.
- Marque a ponta do dedo mais comprido.
- Meça, com régua ou fita, do começo da folha até a marca.
- Repita com o outro pé.
A marca orienta fazer isso no fim do dia. Fica a dica de seguir à risca: medir de manhã, com pressa, antes de sair, não é o que a ASICS pede.
Um detalhe do passo 3: o dedo mais comprido nem sempre é o dedão. Marque o que for mais longe da parede.
E se os dois pés derem medidas diferentes? Meu conselho é usar a maior pra escolher. Um tênis que aperta um pé não fica certo só porque serve no outro.
O que a tabela mede e o que não mede
Com a medida na mão, você vai à tabela. E aqui vale entender o que o número da tabela quer dizer.
Nas duas tabelas usadas como exemplo, o centímetro é o comprimento do pé. Não é o comprimento da palmilha, nem o espaço interno do tênis. A tabela diz "este número foi pensado para um pé deste tamanho". Ela não mostra quanto sobra na frente dos dedos, nem se a forma é mais estreita ou mais larga.
Por isso, a diferença de 1 cm entre o 39 da ASICS e o 39 da New Balance não quer dizer que a palmilha de um seja 1 cm maior que a do outro. Quer dizer que as marcas associam o mesmo número a pés diferentes. É uma diferença de tabela, não uma medida dos tênis.
Na prática, isso tem uma consequência direta. Uma pessoa com pé de 25 cm encontra o 39 na tabela da New Balance. Na tabela da ASICS, o 39 é para pé de 26 cm. Se essa pessoa pedir 39 nas duas marcas sem olhar a tabela, num dos casos ela está comprando um número pensado para um pé maior que o dela.
Outra coisa que a tabela não responde: a forma. Dois tênis feitos para o mesmo comprimento de pé podem vestir diferente na largura, na altura do peito do pé ou no calcanhar. Nos dois exemplos deste texto, como cada tênis veste por dentro não está confirmado. Pra quem tem pé largo ou alto, esse é o ponto pra perguntar ao vendedor ou experimentar antes.
Na chegada: a etiqueta e o código
O tênis chegou. Antes de tirar da caixa e sair andando, confira se veio o tênis que você pediu.
Isso vale mais do que parece, porque o mesmo nome comercial pode aparecer em versões diferentes. O código ajuda a separar uma da outra. No Japan S do exemplo, o código é 1201A555-105, que corresponde à cor Branco/Preto. No 574v2 do exemplo, a referência é U574HB2, na cor Preto/Natural.
Às vezes o tênis aparece oferecido com o código incompleto, só com o começo dele. Isso não prova que é outra versão, mas também não prova que é a mesma. A conferência final é a etiqueta interna do tênis, junto com a cor e o número.
Também vale comparar a descrição com o que a marca diz. A New Balance classifica o 574v2 como casual. Se você encontrar o 574v2 oferecido como tênis de corrida, quem manda na classificação é a marca. O mesmo vale para o material: se a parte de cima aparecer descrita como tecido, sendo que a New Balance informa 95% de couro nesta versão, confira com calma antes de pagar.
E, por precaução, guarde a caixa e a etiqueta até ter certeza de que o número e o modelo estão certos. As regras de troca são da loja: consulte a política dela.
Couro ou sintético que imita couro
Os dois tênis do exemplo têm a parte de cima com cara parecida e materiais diferentes.
No 574v2 Preto/Natural, o cabedal (a parte de cima, que cobre o pé) é 95% couro e 5% material sintético. O acabamento desse couro não está confirmado: a composição fala em couro, sem dizer se é liso ou de outro tipo.
No Japan S Branco/Preto, a ASICS descreve a parte de cima como uma construção em material sintético que imita couro. Ou seja, tem aparência de couro e não é couro. Os percentuais não estão confirmados.
Por que isso importa tanto? Porque o material decide o cuidado. É o material, e não o desenho, que diz qual produto entra e qual fica longe. Um tênis de couro e um de sintético podem ter visual de irmãos e pedir limpezas diferentes. Isso aparece com clareza nas orientações das duas marcas, que você vai ver mais abaixo.
O material também decide uma questão de gosto. Tem quem prefira couro e tem quem prefira evitar couro. Pra essa pessoa, a pergunta é simples: do que é feita a parte de cima? Nos dois exemplos, a resposta está publicada. Em outros tênis, confira na etiqueta e na descrição do fabricante.
Embaixo do pé
Embaixo do tênis existem duas camadas que costumam ser chamadas, juntas, de "sola". Vale separar.
A entressola fica entre o seu pé e a sola. A sola é a parte de baixo, que encosta no chão.
No Japan S, a ASICS informa que a entressola é de EVA, uma espuma sintética. A sola é descrita como translúcida, o acabamento que deixa passar um pouco de luz. O material dessa sola não está confirmado.
No 574v2, a entressola tem nome próprio: ENCAP. Pela descrição da New Balance, ela junta uma espuma leve no miolo com uma borda de poliuretano (um tipo de plástico) em volta. A sola leva 60% de EVA e 40% de borracha.
Esses números da sola pedem uma leitura cuidadosa. A porcentagem fala da sola como um todo. Ela não mostra que a parte que toca o chão é 60% EVA, nem mostra onde fica cada material. Ou seja: dá pra saber do que a sola é feita, mas não dá pra concluir, só pelo número, como ela agarra no piso molhado ou quanto tempo leva pra gastar.
O mesmo vale para as promessas. A New Balance associa o ENCAP a conforto. Isso é promessa da marca, não medida. Conforto depende do pé, do uso e de quanto tempo você passa em pé. Nenhuma composição responde isso sozinha.
Uma última nota sobre esta camada: os dois tênis são casuais. Nenhum dos dois é apresentado pela marca como tênis de esporte. A entressola de um tênis casual não está ali com promessa de desempenho em treino.
Por dentro
Do lado de dentro, o que está publicado é pouco nos dois.
No 574v2, o forro e a palmilha são inteiramente têxteis, ou seja, de tecido. Não está confirmado o que existe no miolo da palmilha, nem se ela é removível.
No Japan S, o material da palmilha não está confirmado, nem se ela sai do tênis. A explicação que a ASICS dá sobre EVA fala da entressola. Ela não serve para afirmar que a palmilha também é de EVA.
Pra quem usa palmilha própria, essa é a pergunta mais importante do lado de dentro: a palmilha de fábrica sai? Confirme antes de comprar se ela é removível e se sobra espaço pra sua. Sem essas duas respostas, não conte com a troca.
Os primeiros dias: o calcanhar
Tem um hábito que a ASICS manda evitar com todas as letras: calçar "feito chinelo", pisando na parte de trás.
Atrás do calcanhar, por dentro do tênis, existe um reforço chamado contraforte. Ele segura o formato dessa região. A ASICS inclui na lista de cuidados do Japan S uma orientação direta: não esmagar o contraforte.
O jeito de cumprir isso é simples. Abra bem o tênis pra calçar e pra tirar, sem pisar atrás. Se ajudar, use uma calçadeira. São alguns segundos a mais e evitam amassar a parte de trás.
Quando suja
Aqui as duas marcas têm orientações próprias, e elas se parecem em vários pontos.
A ASICS, para o Japan S, pede:
- conferir antes a etiqueta interna;
- lavar à mão, com produto próprio para calçados;
- usar escova macia;
- não usar alvejante.
A New Balance, na orientação geral de limpeza dos tênis da marca, pede:
- escova macia e detergente suave, sem corante;
- teste antes numa área escondida do tênis;
- pano úmido;
- no couro, limpador próprio para couro, seguindo as instruções do produto;
- nada de máquina, de alvejante, de químico agressivo e de deixar de molho.
O que é igual nas duas: mão, escova macia e nada de alvejante. O que muda é o material. No couro do 574v2, a New Balance pede limpador próprio para couro. No sintético do Japan S, a orientação da ASICS é produto para calçados.
Dois conselhos práticos daqui. Primeiro: leia a etiqueta interna antes da primeira limpeza, não depois do primeiro susto. Segundo: faça o teste na área escondida, mesmo quando a marca não pede. Ele serve pra ver como o material reage antes de passar o produto no tênis todo.
Quando molha
Tênis molhado pede secagem, e a pressa é a pior conselheira nessa hora.
A ASICS orienta secar à sombra, sem secadora, e manter o tênis longe de calor. A New Balance orienta deixar secar ao ar por 24 horas, sem secadora.
As duas orientações apontam para o mesmo lado: secagem no ar, sem máquina. A secadora fica de fora nas duas. A ASICS ainda pede sombra e distância de calor, o que deixa de fora também secador de cabelo, aquecedor e sol forte.
As 24 horas da New Balance também ajudam a planejar. Reserve 24 horas completas de secagem antes de voltar a calçar. Se ele molhou na rua, a mesma lógica vale.
Uma coisa que a gente não pode afirmar é como cada tênis se comporta na chuva. Resistência à água não está confirmada para nenhum dos dois. Molhar e secar do jeito certo é cuidado, não teste de resistência.
Guardar
A ASICS inclui na lista do Japan S manter o tênis longe de calor, de umidade por muito tempo e de óleo. Na prática, isso descarta alguns lugares comuns de guardar sapato: perto de fogão, em área de serviço úmida, dentro de carro no sol.
Pra guardar bem, o tênis precisa estar seco. Guardar ainda úmido, fechado numa caixa ou num armário, vai contra a orientação de não deixar o tênis em umidade por muito tempo.
O óleo merece uma linha à parte. Ele entra na lista de coisas a evitar no Japan S. Então, nada de "receita caseira" com óleo para dar brilho ao sintético.
Quando dá defeito
Garantia é o momento em que o papel guardado faz diferença.
No Japan S, a ASICS dá 180 dias contra defeito de fabricação. A partir de quando esses dias contam, se da compra ou do recebimento, não está confirmado.
No 574v2, a New Balance dá 90 dias para defeito de fabricação, contados da compra ou do recebimento, com nota fiscal obrigatória. Quem comprou numa loja parceira pela internet deve acionar o atendimento do vendedor ou do site onde fez o pedido.
A conta é simples: 180 dias é o dobro de 90. Mas atenção ao que garantia é. Ela cobre defeito de fabricação. Ela não mede quanto tempo o tênis dura e não responde nada sobre conforto. Uma garantia maior é um prazo maior para reclamar de defeito, não uma promessa de durabilidade.
O que guardar, nos dois casos:
- a nota fiscal;
- o comprovante do pedido, se a compra foi pela internet;
- a data em que o tênis chegou;
- o contato da loja onde você comprou.
O que nenhuma tabela responde
Depois de tudo isso, sobram perguntas que nenhum número publicado responde.
O peso do 39 não está confirmado em nenhum dos dois. A forma, se o tênis veste justo ou folgado, também não. Conforto, aderência e durabilidade dependem do uso e do pé de cada um.
Isso não é falha de nenhum dos dois tênis. É o limite do que uma descrição de produto consegue dizer. A tabela diz para que comprimento de pé o número foi pensado. A composição diz do que o tênis é feito. A lista de cuidados diz como não estragar. O resto é uso.
E se você tem dor, calo, joanete ou qualquer problema nos pés, a escolha do tênis não deve sair de tabela nem de composição. Procure um profissional de saúde para orientar.
Meu conselho
Antes de qualquer tênis casual, faça três coisas, nesta ordem.
Meça o pé no papel, no fim do dia, nos dois pés, e fique com a medida maior. Compare essa medida com a tabela daquela marca, e não com o número do seu tênis antigo. E, quando o tênis chegar, confira o código, a cor e o número na etiqueta interna antes de usar na rua.
O resto (limpar à mão, secar à sombra, não pisar no calcanhar, guardar a nota) é rotina. Mas são esses três passos que evitam uma frustração bem evitável: um 39 que não é o seu 39.
Equipe de tênis · ComparaModa